Quem quer falar cachalotês?
Notas sobre a diplomacia interespécies de Baptiste Morizot.
Traduzir, sempre.
O fato de aparecer um vídeo de baleia toda vez que eu abro meu Instagram é a única razão de eu continuar usando o aplicativo (mentira, gosto também das leituras semanais de Tarô da Paulina Hupe, a que assisto tomando notas, já que nunca consigo assistir às aulas em que me inscrevi).
Esta semana dei com um vídeo sobre um estudo conjunto da Universidade de Berkely e do Cetacean Translation Initiative1 que detalha como as cachalotes usam uma estrutura sonora análoga à nossa — com “vogais” e “consoantes” — para se comunicar. Como os outros cetáceos com dentes, as cachalotes emitem sons que parecem uma espécie de rangido, tec-tec-tec. Já as baleias de barbatana (que não têm dentes), como a jubarte, se comunicam no canto que a Dory tenta imitar em Procurando Nemo. (Se quiser aprender um pouco sobre baleias e conhecer algumas histórias, sugiro As baleias e nós2, de India Desjardins e Nathalie Dion, que traduzi para a Grua).
Estamos muito perto de falar cachalotês. Mas, mesmo que o fizéssemos, será que as cachalotes nos entenderiam? Ou estaríamos emitindo sons sem sentido?
Em Manières d’être vivant3, de que já falei aqui, Baptiste Morizot discorre sobre a possibilidade de tradução entre linguagens humanas e outras que humanas ao falar de sua experiência com os lobos no Vercors, região montanhosa da França. Morizot é um um pisteur, segue a trilha dos animais para aprender mais sobre eles e, quem sabe, viver um encontro frente a frente. Uma noite, durante uma de suas incursões na montanha, ele e outras pessoas hospedadas numa cabana ouvem um lobo uivando perto. Morizot uiva de volta. O lobo responde. Morizot dá a tréplica. Outros lobos entram na “conversa”. Ficam assim por alguns instantes, trocando uivos, até que os lobos ficam em silêncio. O humano foi, provavelmente, desmascarado em sua falta de fluência.
Os outros caminhantes perguntam, afoitos: “O que ele quis dizer? Por que eles respondem, sabendo que você é humano? Ou será que pensam que você faz parte da matilha? E para que serve essa troca de uivos?”
Se esse “diálogo” é um enigma, o autor mostra que ele também nos fornece pistas para outras maneiras de ser/estar vivo, como o título do livro propõe. O lobo uiva de volta e tenta decifrar Morizot, esse bárbaro: “aquele que não sabe a verdadeira língua”.
“Por uma vez, é ele quem fala e o humano quem balbucia de modo confuso: e como um soberano hospitaleiro que acolhesse um estrangeiro, faz o esforço de perguntar várias vezes, para saber se eu sou alguém também, um ser com quem se pode comunicar.”
Manières d’être vivant, p. 52 (tradução minha)
E quanto à questão de para que serve o uivo, ele nos devolve — será essa a boa pergunta a se fazer?
Estamos acostumados a pensar em cada característica dos seres viventes que hoje habitam a Terra como resultado da evolução, cumprindo uma função de adaptação ou sobrevivência. Que é para isso que ela está ali. O que é verdade, mas não para por aí. O fato de uma característica ter sido selecionada por um determinado fim não significa que ela não tenha sido ou não seja hoje usada para outras finalidades. Existe uma história múltipla, ziguezagueante, do uso de cada característica, que faz de cada espécie o que é hoje.
“As funções passadas (a pluma [dos pássaros] foi selecionada para a termorregulação, a exibição, o voo) nos informam sobre as propriedades do aparato corporal e comportamental de que dispõe cada indivíduo (as plumas são brilhantes, respiráveis e sustentam o voo) mas, como de costume na vida, cada um faz o que quer do que a evolução fez de si, cada um subverte, desvia, e inventa a partir da riqueza de sua herança.” (p. 59)
Trata-se de assumir a herança biológica sem que ela se transforme em determinismo. Nossas unhas, as penas dos nossos parentes alados, os cliques da cachalote, todos são resultado de um processo evolutivo, mas também contêm possibilidades de uso que estão disponíveis para os seres viventes.
“O uivo parece perfeitamente ajustado para fazer coisas maravilhosas, sem que possamos listá-las todas ou hierarquizá-las. A mensagem do uivo não se esgota numa tradução utilitária (“venham!”), ou num raciocínio funcional fechado (“o uivo do lobo serve para se situar no escuro”). Este último é a arma que os evolucionistas embotados usam para mascarar o infinito murmúrio de história escondido em cada órgão e cada comportamento.” (p.59)
Assim, Morizot reposiciona a questão do diálogo: mesmo que seja impossível falar a linguagem dos lobos ou emitir uma sentença em cachalotês com conhecimento de causa, é preciso traduzir os seres viventes sem cessar, para acompanhar sua inventividade. Praticar o que ele chama de uma espécie de diplomacia interespécies, para compreender os laços que nos unem e, quem sabe, desenvolver novas habilidades compartilhadas.
Do chão não passa
“Queria estar desenvolvendo habilidades de sobrevivência, mas estou ocupada com todas as coisas prosaicas”, disse a uma amiga.
Ela respondeu:
Mas o prosaico tem muito a ver com a sobrevivência. Você já pensou nisso?
O prosaico é chão.
Nem sei dizer que pensamentos me atravessaram esta semana (ou nos últimos dois meses) porque não estava prestando atenção. Voltar a trabalhar em escritório me deixou desequilibrada. Lancei-me de bruços no chão, em busca de um centro de gravidade mais estável. Agora que estou mais acostumada ao balanço, ao piso sempre em movimento, vou me levantando, sim.
Se você chegou até aqui, muito obrigada.
Conta nos comentários, você também sonha com baleias? Já conversou com um jabuti?
https://doi.org/10.1162/OPMI.a.252
https://actes-sud.fr/catalogue/sciences-humaines-et-sociales-sciences/manieres-detre-vivant




