Mesmo fora de foco
Notas compiladas num dia curto: Pablo Servigne e o convite a se projetar para além do que perderemos em múltiplos colapsos; Vinciane Despret e o papel de preparar um mundo que não veremos.
Acabou o foco, disse meu amigo na mensagem de áudio.
Eu acabara de comentar com ele que tenho cumprido minhas tarefas num estado meio ébrio, não por uso de substâncias psicoativas, mas por causa da mente rodando em overdrive.
Tenho a sensação de que tudo que requer atenção e cuidado é feito em minutos ______ ia dizer roubados, mas isso equivaleria a subscrever à ideia de que o tempo é passível de uma relação de posse, o que acho que não é uma boa ideia com que se pensar.
São minutos não roubados, mas sim arrancados, arrancados ao grande nevoeiro que preenche minha mente, um composto espesso de tarefas profissionais e domésticas, ansiedade e cansaço, com pitadas de climatério. Minutos arrancados às bicadinhas, anotando no bloco de notas do celular, ou como pedaços da parede: a marretadas.
Nesses minutos, tenho pensado na teia que é possível tecer entre as leituras que tenho feito, as conversas que tenho visto.
Continuo grifando Une autre fin du monde est possible [Um outro fim do mundo é possível], de Pablo Servigne, Raphaël Stevens e Gauthier Chapelle. O livro deles tenta trazer caminhos para quem já se deu conta de que deu ruim, e agora se pergunta: o que eu faço com isso? Leitura perfeita para pessoas ecoansiosas. Não está traduzido para o português, mas é para isso que vocês têm o Lápis. Vou trazendo minhas anotações e reflexões por aqui, e seguimos avançando na neblina.
Servigne e seus colegas falam em colapsos, no plural. Pois não se trata de um colapso tipo O dia depois de amanhã, grandioso e unívoco, fazendo terra arrasada para partir de uma tábula rasa, mas não tão rasa assim, porque geralmente essas narrativas mainstream de fim de mundo são uma fantasia de volta ao paraíso original, uma espécie de chance de refundar o mundo depois de expiar os pecados. Em vez de fantasiar sobre um fim apocalíptico (e, portanto, redentor), trata-se de equacionar a vida diante de colapsos múltiplos, inclusive de um sistema de crenças. Como, por exemplo, a crença no Progresso, no Crescimento econômico, na dicotomia Humano x Natureza e na visão dos seres humanos como espécie mais inteligente.
O Progresso, o Crescimento, a Natureza são histórias tão enraizadas no nosso sistema de pensamento que esquecemos que são histórias. Aliás, e aqui estou pisando já em território que me é desconhecido, a consolidação dessas histórias como fundamento da sociedade como conhecemos hoje coincide com a ascensão do romance como forma de narrativa. Para “naturalizar” a explicação do mundo que justifica o capitalismo, foi preciso inventar a ideia de que histórias são ficção, mero entretenimento. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Mas não, nunca é. A realidade é informada e formada pelas histórias que se conta. Alguém já deve ter estudado essa relação entre os nascimentos do romance e do capitalismo: aceito referências na caixa de comentários.
Mesmo que não vejamos os resultados de nossas ações (o que é muito provável, tendo em vista a inércia dos processos que já se desencadearam e as alças de retroalimentação dos sistemas que fabricam e regulam as condições de vida na Terra), devemos cultivar o terreno para um mundo diferente. É um trabalho árduo, que só pode ser feito em conjunto, e a alegria possível neste mundo em ruínas vem justamente desse fazer junto. Como nos lembra Vinciane Despret, nesta fala que ela conclui com este chamado:
Não veremos, talvez, renascerem formas de solidariedade que testemunhamos (e perdemos).
Preparamos um tempo em que serão possíveis formas de solidariedade, equidade, proteção, hospitalidade.
É isso que devemos transmitir.
Então, não largamos mão.
O que isso exige de nós é, no mínimo, nunca se habituar ao que o mundo está se tornando. As ruínas deixadas pela destruição não são nem devem ser normais. Elas são testemunhas da loucura que as produziu.
Não nos habituemos ao silêncio progressivo dos pássaros, dos insetos e dos seres viventes.
Não nos habituemos ao silêncio das pessoas nas prisões e nos campos.
Não nos habituemos às violências, às perdas e aos mortos em botes ou por meio de bombas.
Poderia ter sido diferente.
Não nos habituemos, nem que seja para manter presente de maneira ativa o sentimento de que poderia ter sido diferente.
Vinciane Despret.
Aliás, nem sei se se trata de preparar a volta de coisas que perdemos. O que perdemos, perdido está. Podemos criar outras coisas. Acho que esse é um sentimento déroutant, como se diz em francês: aquele que tira você da rota, desnorteia. Perdemos tanto, vamos perder mais ainda: são os múltiplos colapsos de que falam Servigne, Stevens e Chapelle.
Precisamos dedicar tempo ao exercício de cartografia das nossas perdas, que é cheio de contradições. É possível ficar ao mesmo tempo com medo de como será um mundo em que não haja mais as instituições e a infraestrutura que sustentam a vida como conhecemos, com seus confortos para quem pode pagar, e esperar ansiosamente pelo dia em que estaremos livres delas. Pense num mundo em que não existam mais políticas de crescimento econômico e uma vida boa de ser vivida não dependa de poder de compra, sem jatinhos particulares para bilionários (e sem bilionários), mas também sem 5G ilimitada.
Servigne e seus colegas convidam a projetar-se para além do que perderemos e imaginar o que pode surgir no lugar. Tentei fazer esse exercício em 2006, quando me familiarizei com o trabalho do IPCC e a Teoria de Gaia e a mudança do clima entrou de vez na minha vida (e nas minhas noites mal dormidas). Mas acabei ficando com vergonha de imaginar um futuro de sobriedade alegre ao pensar em toda a dor que fará parte do caminho até chegarmos a ele. Mesmo assim, precisamos imaginar. Exercitar o músculo da imaginação, como nos lembra sempre a Ana Rüsche. Olhar para os discursos e pressupostos que sustentam nossa organização econômica e social atuais como contingências, e não resultado de uma marcha da história inelutável.
Para ajudar nesse exercício, outro livro que está no meu plano de leitura é O despertar de tudo, de David Wengrow e David Graeber1, a quem me refiro carinhosamente como “os Davids”. Só de ler a introdução, já quis sair anunciando por aí que o currículo de história que tivemos na escola foi um engodo. A história das civilizações que contaram para nós é completamente esburacada e enviesada, omitindo ou ignorando arranjos e práticas que saiam da narrativa que coloca a sucessão de formas políticas e sociais que conhecemos como uma espécie de consequência lógica e inelutável do processo de desenvolvimento humano. É preciso resgatar a percepção de que, a todo momento, possibilidades estão latentes.
Voltando para a fala da Despret no vídeo aí em cima, ela começa citando Virginia Woolf:
the future is dark, which is the best thing a future can be, I think.
Despret nos lembra que a palavra dark pode ser traduzida como sombrio, mas também, obscuro, ou seja: cheio de possíveis incertos. O futuro está aí, nessa potencialidade múltipla, uma espécie de célula-tronco, cujo desdobramento nós podemos moldar, começando por recusar tanto a história que diz que já está tudo perdido quanto a que diz que é possível “salvar” o planeta/o clima/a humanidade. Nem uma coisa nem outra. O que, então? Não sei, mas acho que um bom ponto de partida é desmanchar dentro de nós a história que nos permite acreditar que somos capazes de “resolver o problema” pelo mesmo engenho que o criou.
Se você leu até aqui, um gigantesco obrigada. É pesado, é obscuro, é desconfortável o assunto. E nesses dias curtos do inverno europeu, é como uma matéria aveludada, azul-escuro, movendo-se bem em cima do esterno. E a companhia de quem está disposto a ficar com o problema é o que faz a vida ser boa de ser vivida, azul no peito.
Na edição que foi por e-mail, errei o nome do David Graeber (confundi com o Harvey, de Cidades Rebeldes). Uma edição escrita fora de foco, de fato.




Obrigada por compartilhar, Alice! Ainda vou voltar nesse seu texto outras vezes pra rever as belezuras que você falou.