Um homem quase engolido por uma baleia, escrevo no bloco de notas do celular.
Sei que essa notinha ficará perdida entre tantas, e se um dia eu a encontrar, vou sorrir. Um pedacinho do cotidiano que registrei às pressas e depois nunca mais olhei.
Poderia ter virado alguma coisa, um texto, talvez. Quase tudo pode virar texto.
Esta manhã sinto vontade de escrever, depois de semanas de insônia.
Quando criança, tinha medo da noite. Me enfiava embaixo do cobertor tricotado de lã marrom-claro e imaginava que ali eu era invisível. Ser invisível, imaginem, não para fazer o que bem entendesse (como o Harry Potter) mas sim porque, se eu fosse invisível, se eu não existisse, ninguém poderia me achar.
Se eu te der um chocolate e te disser que vão querer roubá-lo, o que você faz para evitar?, me perguntou o instrutor no ateliê sobre segurança digital. Eu como, respondi.
Um homem quase engolido por uma baleia, seu nome era Santiago.
A baleia queria proteger? Queria mostrar o inédito, ou o não tão inédito. Ela queria dizer alguma coisa? Devia haver uma palavra para quem vive contatos imediatos de terceiro grau com a baleia. Impossível continuar levando sua vida como se de nada se tratasse depois de ter estado tão perto. Tão perto até que dentro.
(se você estava em retiro numa caverna e não viu ainda, tem vídeo aqui )
Volto para o mantra
que é essa frase da Giulia Mazzola:
O conhecimento só se torna sabedoria quando é entretecido no corpo.
Como o xale que uso para me aquecer quando estou trabalhando diante do computador no inverno, visto essa frase, espalho-a por cima e em volta de mim, querendo aprender sobre isso.
Quero dizer coisas, mas não tenho vocabulário. Sou como a baleia que engoliu uma pessoa: não tenho as palavras, só corpo. A linguagem de que dispomos é organizada de uma maneira, e essa maneira é tão tributária de um modo de pensar que não sou capaz de me dizer nela. É preguiça isso? Dizer é perder.
E esta frase de uma colega de Filamentos:
“não conseguir ficar no entre, que é o lugar da representação”
Você sabe com quem está falando [?]
Fiz um curso esta semana sobre como usar IA como auxiliar na preparação de aulas.
O professor explicava que é preciso usar frases curtas, porque assim o Chat GPT entende melhor. Conversacional, pois, mas nem tanto.
Já adaptamos nossa maneira de falar e de escrever aos algoritmos das redes, agora vamos adaptar nossa maneira de fazer perguntas e de estruturar problemas ao funcionamento das IAs. Tudo muito bem, a linguagem é plástica, ela é viva, e é talvez o exemplo mais bem-acabado de como toda técnica é cultural e carrega significado. Mas. Acostumar-se a fazer perguntas adaptadas ao funcionamento das IAs molda o campo do nosso pensamento. Restringe as possibilidades. Se eu vou perguntar de um jeito que sei que ele vai me responder, quais perguntas são pensáveis? Como o hábito de recorrer às IAs moldará, talvez em bem pouco tempo, nossa própria curiosidade?
E ainda — este óbvio abstraído: as ferramentas de “inteligência artificial” gerativa fazem curadoria de conteúdo em escala global. Com o lançamento do Deep Seek, ficou claro que em qualquer IA se trata de escolhas sobre o que e como é processado e devolvido para o “usuário”.
(Este texto foi inteiramente redigido por uma baleia sem uso de ferramentas de IA.)
A composteira
seleção de lidos & ouvidos:
Uma biografia
de James Lovelock, o cientista britânico conhecido pela teoria de Gaia, que trabalhou para a Shell, o serviço secreto britânico e a NASA, entre outros: The many lives of James Lovelock, por Jonathan Watts, editor global de meio ambiente do Guardian e marido da Eliane Brum (confesso que esta última credencial foi que pesou mais para eu dedicar meu tempo ao livro). Além de mostrar uma pessoa com luz e sombra — Lovelock é um desafio para o pensamento binário que domina o debate público, porque apesar de ele ter trabalhado para e com o establishment, seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da ciência do sistema terrestre — o livro mostra bem a contribuição de outros personagens no pensamento e obra de Lovelock. Por exemplo, como Dian Hitchcock criou com ele a origem de Gaia. (Se você nunca ouviu falar de Dian, zero surpresa: é só o seu exemplo diário de apagamento histórico de mulheres na ciência).
Está muito bom
este episódio do Fio da Meada em que a bióloga Erika Berenguer conta sobre sua experiência estudando os efeitos de incêndios na Amazônia — o trabalho dela envolve chegar perto do fogo para medir a altura das chamas. Ela fala sobre como é difícil as pessoas entenderem que você vive estresse pós-traumático relacionado à morte da floresta, sobre saúde mental entre profissionais da ciência, e sobre agir nesse contexto:
Não dá pra se livrar do fascismo postando
Li este artigo aqui (em inglês) que diz aquilo que já sabíamos e ainda assim continuamos fazendo: passar o tempo se indignando com arroubos obscurantistas e desmentindo mentiras, o doomscroll nosso de cada dia, é contraproducente. O objetivo dos governos autoritários e CEOs de techs é justamente manter-nos presos num eterno scroll da perdição em vez de nos organizarmos na “vida real” contra eles. Ano que vem é ano de eleições, e aí? Vamos de novo passar um tempão engajando com conteúdos que apertam todos os nossos botões?
Umas ideias:
abrir o insta, ou qualquer rede, em estado de presença – não como um ato automático. Respirar antes de abrir, consciente de estar diante dum carrossel em movimento feito pra te distrair. Você vai ali dar uma olhada, mas sem tirar os pés do chão.
ao primeiro post que te mobilizar, fechar o app. Pegar um caderno (ou o bloco de notas do celular) e pôr pra fora o que aquilo fez com você. Reações, ideias, conexões, desdobramentos… Processar aquela informação, em vez de ela ficar rodando lá no fundo da sua cabeça enquanto você scrolla por mais meia hora.
Experimentei no começo de janeiro montar um quebra-cabeça de mil peças. Toda vez que eu sentia vontade de abrir o Insta e ficar ali deslizando o indicador, ia lá tentar resolver esse problema que tem solução:
Por hoje é isso, gente. Contem aí nos comentários como vocês estão fazendo para viver bem, o que estão lendo e se vocês já sonharam que eram invisíveis ou que foram engolidos por uma baleia.
Obrigada pela leitura e até breve!
PS: só eu que não sabia que o Roberto Carlos tem uma música chamada As Baleias?



Amei, de novo. Essa edição a gente comenta ao vivo😉